segunda-feira, 30 de março de 2009

RECORTE

Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos. Está lá o corpo estendido no chão. O que me importa é não estar vencido. Não está chegando a hora, nem é hora de partir. Mas de reconhecer a queda e não desanimar. Deixar toda dor interna morrer. Levantar a cabeça e dar a volta por cima. Arrependimentos eu tive alguns, mas tão poucos, indignos de menção.

Vida louca. O amor veio e me levou com ele. E foi assim, como ver o mar, a primeira vez. Mas acabamos descobrindo que podemos vê-lo de tantas formas melhores. E assim o fiz. Sonho mesmo, a charada sincopada que ninguém da roda decifra. É minha lei, é minha questão. Sonhar mais um sonho impossível, vencer o inimigo invencível.

A partir de hoje, seu olho me olha, mas não me pode alcançar. Quem não me conhece não pode mais ver pra crer. Quem jamais me esquece não poderá me reconhecer. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Então vamos começar colocando um ponto final. Finalmente viver sem ter medo de ser feliz.


Palavras são palavras e a gente nem percebe. Mas cada um tem seu jeito próprio de se defender. Basta de clamar inocência. Consegui exatamente o que eu queria. E não há nada que me detenha. Quando fui, quando não fui, tudo isso eu sou. Agora não pergunto mais aonde vai a estrada. Deixar o meu amor crescer e ser muito tranqüilo. Vai ser, vencer, brilhar, acontecer!

Posso me orgulhar e tenho a consciência que eu tenho meu lugar. Eu sou o cara.

DIEGO PONCE DE LEON

Obs: A inspiração do recorte musical e as referências literárias são uma homenagem ao amigo de fé e irmão camarada, Vinny Werneck.

sábado, 21 de março de 2009

COTIDIANO

COTIDIANO

Todo dia nós fazemos tudo igual e postamos várias horas da manhã. A necessidade da atual geração é estar sempre exposta, numa espécie de competição por popularidade. A entrega aos meios virtuais permite a falsa idéia de sermos quistos pelos demais. Buscamos o maior número de amigos ou seguidores. Construímos blogs e gastamos vastas horas do nosso cotidiano para a alimentação dos personagens que interpretamos na tela.

Nunca foi tão fácil inflarmos nosso ego social e nos apresentarmos como quer que seja. Cabe à nossa seletiva escolha de palavras nas descrições dos perfis afora, para atingirmos os leitores exatamente como esperado. O apelo visual das ferramentas e utensílios disponíveis, como fotos e vídeos, reforça a construção desta personalidade a ser assimilada pelo nosso círculo social.

Stanislavski discorre em seu livro “A Construção do Personagem” sobre os diversos artifícios que o ator deve recorrer para a formulação perfeita do papel a ser interpretado. Mal sabia que em tempos de redes sem-fio e da geração SMS, suas técnicas seriam naturalmente aplicadas por qualquer um que intente ingressar no amplo mundo dos internautas. Arriscar posição contrária pode ser visto como suicídio social.


Mesmo diante das adversidades recorrentes, sejam quais forem e independente da intensidade, recusamos todas as atitudes analógicas. O bullying ocorre via mensagens de texto entre celulares, as fofocas recheiam as páginas pessoais, vidas são destruídas por vídeos caseiros e vizinhos tornam-se célebres no You Tube. Os nerds se passam por descolados. As gordinhas estão em forma. O aluno rebelde tem página para suas especulações desprovidas de argumento e ainda sim, registra números impressionantes de comentários em cada texto. Namoros iniciam via email e terminam pelo MSN. Mallu Magalhães, coitada, acredita que as visitas no My Space façam dela cantora.


A tragédia maior recai na máscara que vestimos. Distanciamo-nos gradativamente de nossa sombra (viva Jung!) e a cada scrap estamos cada vez mais longe de quem verdadeiramente somos. Fernando Pessoa nos alertou anos atrás, que determinada hora, a máscara estará grudada ao nosso rosto (persona). Conseguimos nos convencer de tudo que adoraríamos ser e passamos a viver em locais públicos. Os danos serão irreparáveis. Pouco importa. A liberdade de escolha diante de um número infinito de personagens é apelativa e estamos seduzidos. Gil cantou sobre a internet quando esta dava os primeiros passos e soava musical. As trilhas são inúmeras. E estão todas ilegalmente disponíveis no E-mule e no Limewire aguardando download.


Irônico pensar na vastidão do mundo da internet e no que poderia nos propiciar, quando nos submetemos e passamos a teclar cada letra passivamente. Escravos de nossos perfis, depoimentos e buddypokes.


Tomara que as músicas continuem sendo baixadas, os blogs escritos e os perfis criados. Mas que os internautas se tornem mais conscientes e possam desempenhar seus papéis com a verdade que lhes condiz. Bons tempos aqueles em que o amor era o ridículo da vida. O amor é virtual. Assim como o sexo, as amizades e tudo aquilo que você não é.


Palavras pouco românticas para os orkuteiros e twitteiros de plantão, escritos por um blogueiro, membro da mesma rede que une todos nós. Sou lido e visto. E você que não é? Deve estar morto.


Texto por DIEGO PONCE DE LEON

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Quando Eu Estou Aqui


Quando eu estou aqui...

Conservatória é, certamente, das mais pitorescas cidades no interior do estado do Rio de Janeiro. As razões são inúmeras. O título de “Capital Nacional da Seresta” é uma delas.

Cada noite, sob o luar, seresteiros percorrem as ruas enladrilhadas cantando e declamando o próprio amor. As namoradeiras se espreitam no descanso das janelas para escutar as poesias e canções. Cenas quase barrocas. Quisera poder moldá-las.

“Seu” Fernandes, 75 anos, é seresteiro querido na cidade. Dedicou os últimos 20 anos na manutenção do Museu da Seresta, que guarda um acervo musical precioso. “A memória de José Borges deve ser honrada”, diz Fernandes. Ele se refere ao primeiro cancioneiro a se instalar na cidade. No final da década de 50, José Borges e seu irmão Jubert (que ainda está vivo, aos 87 anos) se sentavam na praça e cantavam até o amanhecer. As pessoas se aproximavam, cantavam juntas. Aos poucos outras vozes se fizeram ouvidas. O poeta e seus versos. O pintor com suas telas. O violeiro e suas cordas. Nascia a tradição cultural da cidade.

Enquanto “Seu” Fernandes relata os “causos” da pequena cidade, Dona Lúcia olha-o atentamente. Interrompe-o diversas vezes. “O senhor me desculpe!”. E passa ela a contar histórias inacreditáveis ocorridas ali. Não sem antes fazer o sinal da cruz. Passava o cortejo que velava o corpo de Dona Sarita, esposa do médico da cidade. As portas do comércio se fechavam conforme os amigos e familiares de Saritinha, como era carinhosamente chamada, seguiam rumo ao cemitério. Entoavam cantigas fúnebres. “Pessoa boa. Alma pura”, lamentou Dona Lúcia. Mas retomou logo a narrativa sobre o rico folclore local.

Lendas de uma fantasia deliciosa. Estórias (uso a palavra em respeito a João Ribeiro) para comer. Um universo de escravos e senzalas. Curandeiros e milagres. Seresteiros e amores eternos. Gilberto Freyre ficaria orgulhoso. Caio Prado Jr. torceria o nariz. Pena que Dona Lúcia é logo censurada pela filha, aflita para seguir o rumo de casa e receosa pela chuva que ensaiava uma tempestade daquelas. A aula de música com Maria Olímpia, esposa de “Seu” Fernandes tinha acabado. Agarrou a mão da mãe e seguiram as duas, fugindo dos pingos que já caiam.

A música “Ontem ao Luar”, de Catulo da Paixão, tocava num rádio antigo que transmitia a programação da única estação da cidade. O aparelho arcaico parecia padecer junto à canção. O cantor soava melancólico e podia-se quase imaginar sua expressão. “Quem está cantando sou eu”, revela “Seu" Fernandes. Com o olhar emocionado me entrega a cópia de seu mais recente livro, “Jardim dos Buquês”. Lê-se nas primeiras páginas: “Em Conservatória, as serenatas e serestas revivem em nossos corações, um tempo que não existe mais.”.

No pacato vilarejo, as crianças brincam nas ruas, os namorados compram algodão doce na praça, as moças puxam a barra da saia e os bilhetinhos de amor adentram as frestas das sacadas floridas. O sino da igreja convoca todos para a missa. E eles vão cantando. Desde a porta de casa.


Adendos:

Nos fins de semana, seresteiros locais e vindos de cidades próximas atraem os visitantes e a população local com as andanças pela cidade.

Em Conservatória, todas as casas recebem nomes de canções seresteiras. Estava hospedado na “Lábios que Beijei”, bem de frente à “Emoções”. Sugestivo para uma bela crônica.

Em tempo. Qualquer morador faz questão de diferenciar a seresta da serenata. “A seresta ocorre dentro do recinto. A serenata é sempre nas ruas. Mas ambas falam de amor”.

O nome da cidade, diferente do que a maioria imagina, não tem qualquer relação com a alma musical do local. Antiga área dos indíos Ariris, Portugal, ainda na época do império, instituiu ali um cartório para registro dos indígenas, que em terras portuguesas, recebe o nome de conservatório. Daí o nome.

Abraços para Gi e Cris. Companheiras de divagações eloquentes (sem trema!) e de risadas contextuais.


Texto de Diego Ponce de Leon

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Pouco Eu Não Quero Mais

Algumas pessoas – pessoas felizes irritantes – acreditam no poder do pensamento positivo. Elas estão satisfeitas por estarem aqui, seja lá onde quer que aqui seja e acreditam que tudo aconteça por uma razão. Isso os separa estreitamente dos teóricos conspiradores, que acreditam que tudo ocorre por uma razão, mas uma razão ruim (e possivelmente judaica).

Eu mesmo sou um apreciador do pensamento negativo. Pessimista por natureza. Acordo diariamente me perguntando a tragédia do dia. O que acaba me causando certa ansiedade, mas prefiro o cotidiano suscetível a desventuras em série, do que dias prolixos e tão vazios. Entretanto, nos últimos dias, minha voraz expectativa por desgraças diárias foi globalmente aniquilada.

Os americanos felizes resolveram estourar a bolha de crédito. As igualmente felizes instituições financeiras (corre pelos corredores, que andam um tanto quanto bucólicas e introspectivas nos dias mais recentes, uma ofensa para os ensolarados dias de outrora), soltaram no mercado falido mais verba que deveriam. Pobre Milton Friedman, cujas lições (e ascensão heróica) foram jogadas a esmo com a própria economia mundial e suas bolsas (Louis Vuitton). Ironicamente, grandioso para o esquecido Keynes, que livrou a América de amargar posições hierarquicamente inferiores no ranking mundial após a queda de 29, e que retorna de forma triunfal, protagonista, como se Don Corleone estivesse vivo. Abram as cortinas.

Destarte, sigo inócuo diante do colapso financeiro. Acordei hoje me perguntando, como sempre, qual poderia ser o ápice negativo do meu dia. Crise Financeira!!! Está lá. Feito, nada a ser questionado. Posso priorizar meus compromissos. Quem sabe tomar um chá, ler crônicas despretensiosas ou divagar sobre Christopher Campbell. Não há ninguém com câncer. Se morreu alguém, mero figurante. Todos ainda me amam. Só há a crise. E quem há de discordar?!

Eu lhes digo: os otimistas! Cegos (que o diga Saramago) e potenciais responsáveis por essa crise (afinal quem não poderia prevê-la?!), já tecem jornadas e roteiros cinematográficos (à la David Lynch), para que possam rapidamente superá-la. Hipócritas. Tenho pena. Aguardo ansiosamente pelo desfavorável. Meus dias florescem quase poéticos. A pedra de Drummond é velha conhecida.

Otimismo é analogia franca e escancarada de um pessimismo alegre. Grifo meu.

Desafortunadamente e tragicamente (pelo vosso sacrifício), terei que encerrar prematuramente meus vocábulos, que vale ressaltar, foram apenas proporcionados pela falta de preocupações alheias e consequentemente, por uma mente vazia que vagueia em busca de desfechos rodriguianos. As cortinas teimam em não fechar. Se lhes compete, bati meu carro ontem. Nada muito apocalíptico. Uma faísca de gozo (regojizo) precoce. Preciso passar na AIG. Na AIG! Adorei! Que venha o pior. Mal posso esperar.

Texto de Diego Ponce de Leon

Inspirado livremente nos textos do blogueiro conservador (sim, eu leio os dois lados) Mac Johnson.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

BENÇÃO DA DESPEDIDA


Abençoai-me irmãos.

A benção, Chico Buarque de Holanda. Sua graça e boêmia, parceiras constantes. As canções e as melodias. Ordenai: “vai meu irmão, pega esse avião”. Meros súditos hão de obedecer. Questiona “o que será do amanhã”, sem nos dar resposta concreta, mas acalenta a alma, quando emana que “será outro dia” e quem sabe, eu “morra de rir”.

A benção, Maria Bethânia e Caetano Veloso. Vossa irmandade santificada. Embora não invejo, pois da minha própria, certamente invejais.

Saravá!!!

A benção, Roberto Carlos. Na verdade, é justo e necessário, que se faça desse, a presença divina, pois nenhum outro atingirá tantos fiéis, como ele o fez. Cantastes a amizade simplória, mas intrinsecamente franca: “você meu amigo de fé, meu irmão camarada”.

A benção, Vinicius de Morais e todos os seus parceiros. Irmãos poetas, trovadores abençoados. Somente de suas fraternas graças, poderias nutrir-nos com um manto protetor tamanho, que somente dele, dependeria, se a vida não me presenteasse com dois anjos, pilares do que vivo.

Saravá!!!

A benção, Flora Figueiredo, poetisa. Singela nos vocábulos, cala-nos com precisão e profetizas:

“Quando chegarem,
subam ao ponto mais alto do lugar.
E então acenem.
De onde estiverem, quero enxergar
esse momento em que vocês vão constatar
que a vida vale grandemente a pena”

Glória ao pai, Antônio Carlos Jobim, maestro de todos nós. Abençoado sois e fizestes de seus irmãos, tenras criaturas. Descansai. Cuida dos meus irmãos agora. Cubra-os com sua santidade e dá-lhes força.

A benção, Bigo e Nem. Pelas lágrimas. Pelos ensinamentos. Por fazerem de mim, irmão. Irmãos coragem, irmãos tropicalistas, Irmãos Corsos e Roccos, irmãos Gallagher e Grimm. Los Hermanos. Blues Brothers. Irmãos Kaufman. Caetano e Gil. Tom e Vinicius. Tetê e Kiko. Eu,Rodrigo e Daniel. Entidades celestiais ainda não inventaram nada melhor. Pelas mãos dadas, pelos ombros de apoio. Pela amplitude do que representam e pela ausência que jaz.

A benção, Marcelo Camelo e sua áurea melódica maior que a minha. Sua simplicidade incômoda que atesta:

“vim só dar, despedida”.

Ide em paz.

Saravá!!!


Texto de Diego Ponce de Leon

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Lista Sem Valor


O jornalista Adriano Silva, colunista de Época, reproduziu recentemente uma lista de personalidades consideradas “overrated”. O termo britânico engloba qualquer assunto ou pessoa que receba atribuição superior a real valia. Ou seja, aqueles que talvez gozem de prestígio inabalável, mas que não mais façam jus ao elogio. A idéia foi conscientemente e reconhecidamente plagiada da revista Rolling Stone, que em sua edição americana incluiu entre os “super-valorizados” a cantora standard Barbra Streisand, vencedora de Grammys e detentora de vendas exorbitantes, mas que há alguns anos não produz nada inovador e chega a desafinar. Robert de Niro e sua performance prolixa de canastrão mafioso também foram criticados. Aparentemente, diz o periódico, o ator de personagens míticos como Scarface, não mais impõe qualquer pessoalidade aos novos tipos que incorpora e se restringe a repetir caras e bocas, que são velhos conhecidos do público.


Adriano enumera suas vítimas e nos convida fazer o mesmo. Aceitei o convite.


Eis a minha lista:


Gal Costa: a cantora baiana, peça fundamental no movimento tropicalista e pilar da cultura musical brasileira, perdeu-se no repertório e se mantém num ostracismo incômodo há alguns anos. A voz aguda característica não causa o mesmo impacto e a doce bárbara vive encostada na sombra de um passado brilhante, mas já distante. A igualmente importante colega de cena, Maria Bethânia, segue caminho inverso. Munida de uma maturidade explícita e de uma escolha impecável de canções, a irmã de Caetano usufrui de um prestígio digno e justo, construído a base de Tom Jobim e Chico, mas também de Almir Sater e Lenine. As poesias de Fernando Pessoa seriam até desnecessárias, mas adoçam ainda mais o mel da abelha rainha. A outra, dizem, nem mais a letra de “Meu nome é Gal” consegue lembrar.


Pelé: o rei do futebol brasileiro deveria ter se restringido a carreira esportiva. Os exemplos esdrúxulos que Pelé produziu do ridículo são inúmeros. Vide qualquer uma de suas entrevistas. Os erros de português, absolutamente superiores aos números de gols feitos. As excursões dignas de misericórdia na música. Os milhares de filhos reconhecidos e os que ainda estão por vir. E o brasileiro ainda estufa o peito para menosprezar Maradona, maior concorrente no futebol de décadas atrás (já se vão quantos anos, mesmo?!) e que não merece enaltecimento algum, diga-se de passagem, mas não brinda os argentinos com pérolas da ignorância popular. Os vícios são uma lástima. Mas, nossa maior droga, ainda é o próprio Edson Arantes.


Mamonas Assassinas: a irreverente banda, sucesso dos anos 90, produziu um único disco. Ponto. Não preciso escrever mais nada. O acidente tornou-os mártires. Sem causa ou ideologia. Leitores admiradores dos comediantes musicais possivelmente me desprezam neste momento, mas lembre-se que a lista trata de uma valorização extrema. Sem dúvida, as letras e melodias criadas por Dinho e Cia são de importância ímpar. Irônico, eu?! Imagina.


Paulo Coelho: o popularesco escritor de romances piegas disfarçados de auto-ajuda... Opa. Sem mais comentários.


Augusto Cury: reveja comentário acima acerca do pai do alquimista.


Numa sociedade sedenta por novos heróis e incapaz de produzi-los, talvez seja válido desmitificar certas lendas. As lendas, diferentemente dos mitos, são moldadas com o tempo e formulam-se a partir da imaginação do povo. Aparentemente os questionáveis dados fornecidos pelo governo que traz o pobre menos pobre e a classe média abraçando mais da metade da população brasileira, são verdadeiros. A massa passou a frequentar o cinema, ou pelo menos a comprar o dvd pirata para assistí-lo no aparelho comprado a prazo nas Casas Bahia. E adoram o que vêem. Se não fosse assim, estariam rindo da própria desgraça. Ou sou eu, imaginando?!

Vive-se um momento do favelado heróico. As referências supramencionadas são tão menores que o Capitão Nascimento ou o Zé Pequeno. Nada mais coerente. Corre pelos corredores da Cidade de Deus, que Gal está planejando uma aparição na seqüência do filme de Fernando Meirelles. Ele se recusa a pagar o cachê. Personagens para o Pelé não faltam. O roteiro será de Paulo Coelho e o argumento final de Cury. Sucesso absoluto. Em breve, na feira mais próxima de você. Os extras estarão recheados. Até o menino Josué, de Central do Brasil, tece depoimentos arrematadores.

Pensando melhor, talvez os “mamonas” tenham alguma importância. Afinal, no Brasil, melhor rir do que chorar.


E na sua lista, quem seriam os eleitos?!

Texto por Diego Ponce de Leon

terça-feira, 10 de junho de 2008

"Favas e Escrúpulos"


Favas e Escrúpulos

Estar diante de uma das mais emblemáticas figuras do cenário político nacional não foi tarefa fácil. A frieza e imparcialidade exigidas propiciam uma quase comoção ao encontro. O senhor sentado à minha frente luta por uma sanidade ameaçada pelos oitenta e oito anos vividos. Já não amedronta tanto. Jarbas Passarinho viveu a última década num ostracismo perturbador, desde que largou seu terceiro mandato como ministro. Os quarenta anos que nos separam do ano de 1968, que tornaram o ex-senador célebre na história política brasileira, lhe propiciam algumas faíscas de notoriedade. Ainda instiga questionar as razões que o fizeram concordar e ratificar a promulgação do Ato Institucional N° 5, que levou o país a sucumbir aos anos de chumbo subseqüentes. O Brasil conheceria sua hipocondria maquiavélica. Tornaria a tortura intrinsecamente ligada ao aparelho social reparador e produziria vítimas fatais. Vladimir Herzog foi torturado e morto. Gilberto Gil foi preso. Marília Pêra foi despida. Jarbas Passarinho assume a responsabilidade. E não se arrepende.

Uma senhora com ares domésticos me recebe no portão e pede para que eu aguarde. O coronel estava encerrando uma conversa e me receberia em seguida. A casa é simples. Os quadros tortos trazem figuras religiosas e telas barrocas. A mobília é antiga e ajudam a caracterizar o ambiente rústico e mal conservado. O arsenal militar aos poucos toma forma e torna-se perceptível a cada olhar. Certificações, honras ao mérito e medalhas de bravura estão exaustivamente expostas. Lê-se “Estado do Acre” em boa parte desses documentos, o que me faz pensar que o estado natal do entrevistado esteve orgulhoso de seu servo. A idade avançada contradiz os vários maços de Hollywood jogados sobre a poltrona. Não pude observar a coleção de vinis disposta ao lado. Ele me aguardava.

Calejado por um resfriado, Jarbas não oferece relutância em responder longamente minhas indagações. Inicia um longo discurso sobre o comunismo e a esquerda armada no país. Para fundamentar sua exposição mostra os diversos títulos socialistas que compõem a biblioteca que jaz em seu escritório. Vejo Marx, Webber, Guevara e Marcuse. Autores que influenciaram o movimento estudantil a insurgir contra o governo militar, do qual Jarbas fazia parte em 68. Didaticamente expõe todos os fatos que antecederam o AI-5, claramente justificando as atitudes que seriam tomadas posteriormente. Começo a questioná-lo abertamente acerca do tema.

Jarbas não tem qualquer arrependimento. Apenas lamenta que algumas de suas posturas possam ter sido mal-interpretadas no decorrer do tempo. Quando lhe pergunto se preferia não ter sido convocado para a reunião que resultaria no AI-5, responde categoricamente: “Preferia, não poderia!”. Assume uma responsabilidade passiva. Segundo ele, a pressão do Exército não lhe restava opções. Enaltece a postura de Pedro Aleixo e lamenta não poder provar os elogios que dirigiu ao advogado, único contra a promulgação, no decorrer da reunião. Diz ter concordado com o ato, na certeza de que sua duração não ultrapasse o proposto pelo então presidente Costa e Silva. Contraria os mais conceituados estudiosos da época e alega que o AI-5 foi produto daquela cúpula. – “Não tinha decisão”. Afirmo então que Elio Gaspari e Zuenir Ventura atribuem uma função meramente simbólica à reunião, ou uma tentativa frustrada de Costa e Silva de buscar resistência à promulgação. –“Nunca li Elio Gaspari. E morro sem ler. Zuenir Ventura foi aliciado por ele”.

A palavra “repugnância” é repetida algumas vezes quando questionado sobre outros participantes que, diferentemente dele, se disseram arrependidos alguns anos depois. Tece críticas vorazes ao que ele alega ser falta de caráter. O coronel faz pausa neste momento e se comove. Talvez repugnando a postura dos colegas. Talvez se regojizando por não ter feito o mesmo.

Embora fosse parte importante da pauta, a tortura é mencionada pela primeira vez por ele. Aproveito imediatamente: - “A tortura ocorreu, Jarbas? Ocorreu!” Estava ali dito com todas as letras. Naquele momento soube o peso da entrevista. Poucas pessoas vivas podem responder categoricamente tal pergunta. A tortura não se questiona. Assumi-la foi revelador. Conta então do primeiro caso de tortura que teve ciência e diz que a prática era mantida por setores que agiam sem o consentimento do governo. Afirma que seu irmão e sua esposa foram vítimas. Mais uma vez culpa a pressão militar como fator decisivo no exercício da tortura. Encerra o assunto questionando qual nação soberana não tenha se utilizado da tortura para averiguar fatos que julgue relevante. Exaltado, sugere que se este jornalista que vos escreve estivesse sob tortura, falaria o que fosse. Prefiro pensar que não, assim como prefiro não ter conhecido os calabouços do DOI - CODI. A partir daí, Jarbas Passarinho se nega a responder qualquer outra pergunta sobre o tema.

No final da conversa o coronel gagueja. Perguntado sobre o legado que poderia deixar para esta geração que cultua 68, diz que somente através da educação se faz revolução. Por alguns segundos, soou como discurso de líder estudantil. Daqueles contra governos militares. Ainda deu tempo de criticar a juventude atual, sem intelecto e incapaz de discussões fervorosas. Certamente a resposta mais franca. O gaguejo confirma.

Ele não escuta Caetano Veloso. Prefere Milton Nascimento e Rachmaninoff.


Texto e entrevista por Diego Ponce de Leon