terça-feira, 10 de junho de 2008

"Favas e Escrúpulos"


Favas e Escrúpulos

Estar diante de uma das mais emblemáticas figuras do cenário político nacional não foi tarefa fácil. A frieza e imparcialidade exigidas propiciam uma quase comoção ao encontro. O senhor sentado à minha frente luta por uma sanidade ameaçada pelos oitenta e oito anos vividos. Já não amedronta tanto. Jarbas Passarinho viveu a última década num ostracismo perturbador, desde que largou seu terceiro mandato como ministro. Os quarenta anos que nos separam do ano de 1968, que tornaram o ex-senador célebre na história política brasileira, lhe propiciam algumas faíscas de notoriedade. Ainda instiga questionar as razões que o fizeram concordar e ratificar a promulgação do Ato Institucional N° 5, que levou o país a sucumbir aos anos de chumbo subseqüentes. O Brasil conheceria sua hipocondria maquiavélica. Tornaria a tortura intrinsecamente ligada ao aparelho social reparador e produziria vítimas fatais. Vladimir Herzog foi torturado e morto. Gilberto Gil foi preso. Marília Pêra foi despida. Jarbas Passarinho assume a responsabilidade. E não se arrepende.

Uma senhora com ares domésticos me recebe no portão e pede para que eu aguarde. O coronel estava encerrando uma conversa e me receberia em seguida. A casa é simples. Os quadros tortos trazem figuras religiosas e telas barrocas. A mobília é antiga e ajudam a caracterizar o ambiente rústico e mal conservado. O arsenal militar aos poucos toma forma e torna-se perceptível a cada olhar. Certificações, honras ao mérito e medalhas de bravura estão exaustivamente expostas. Lê-se “Estado do Acre” em boa parte desses documentos, o que me faz pensar que o estado natal do entrevistado esteve orgulhoso de seu servo. A idade avançada contradiz os vários maços de Hollywood jogados sobre a poltrona. Não pude observar a coleção de vinis disposta ao lado. Ele me aguardava.

Calejado por um resfriado, Jarbas não oferece relutância em responder longamente minhas indagações. Inicia um longo discurso sobre o comunismo e a esquerda armada no país. Para fundamentar sua exposição mostra os diversos títulos socialistas que compõem a biblioteca que jaz em seu escritório. Vejo Marx, Webber, Guevara e Marcuse. Autores que influenciaram o movimento estudantil a insurgir contra o governo militar, do qual Jarbas fazia parte em 68. Didaticamente expõe todos os fatos que antecederam o AI-5, claramente justificando as atitudes que seriam tomadas posteriormente. Começo a questioná-lo abertamente acerca do tema.

Jarbas não tem qualquer arrependimento. Apenas lamenta que algumas de suas posturas possam ter sido mal-interpretadas no decorrer do tempo. Quando lhe pergunto se preferia não ter sido convocado para a reunião que resultaria no AI-5, responde categoricamente: “Preferia, não poderia!”. Assume uma responsabilidade passiva. Segundo ele, a pressão do Exército não lhe restava opções. Enaltece a postura de Pedro Aleixo e lamenta não poder provar os elogios que dirigiu ao advogado, único contra a promulgação, no decorrer da reunião. Diz ter concordado com o ato, na certeza de que sua duração não ultrapasse o proposto pelo então presidente Costa e Silva. Contraria os mais conceituados estudiosos da época e alega que o AI-5 foi produto daquela cúpula. – “Não tinha decisão”. Afirmo então que Elio Gaspari e Zuenir Ventura atribuem uma função meramente simbólica à reunião, ou uma tentativa frustrada de Costa e Silva de buscar resistência à promulgação. –“Nunca li Elio Gaspari. E morro sem ler. Zuenir Ventura foi aliciado por ele”.

A palavra “repugnância” é repetida algumas vezes quando questionado sobre outros participantes que, diferentemente dele, se disseram arrependidos alguns anos depois. Tece críticas vorazes ao que ele alega ser falta de caráter. O coronel faz pausa neste momento e se comove. Talvez repugnando a postura dos colegas. Talvez se regojizando por não ter feito o mesmo.

Embora fosse parte importante da pauta, a tortura é mencionada pela primeira vez por ele. Aproveito imediatamente: - “A tortura ocorreu, Jarbas? Ocorreu!” Estava ali dito com todas as letras. Naquele momento soube o peso da entrevista. Poucas pessoas vivas podem responder categoricamente tal pergunta. A tortura não se questiona. Assumi-la foi revelador. Conta então do primeiro caso de tortura que teve ciência e diz que a prática era mantida por setores que agiam sem o consentimento do governo. Afirma que seu irmão e sua esposa foram vítimas. Mais uma vez culpa a pressão militar como fator decisivo no exercício da tortura. Encerra o assunto questionando qual nação soberana não tenha se utilizado da tortura para averiguar fatos que julgue relevante. Exaltado, sugere que se este jornalista que vos escreve estivesse sob tortura, falaria o que fosse. Prefiro pensar que não, assim como prefiro não ter conhecido os calabouços do DOI - CODI. A partir daí, Jarbas Passarinho se nega a responder qualquer outra pergunta sobre o tema.

No final da conversa o coronel gagueja. Perguntado sobre o legado que poderia deixar para esta geração que cultua 68, diz que somente através da educação se faz revolução. Por alguns segundos, soou como discurso de líder estudantil. Daqueles contra governos militares. Ainda deu tempo de criticar a juventude atual, sem intelecto e incapaz de discussões fervorosas. Certamente a resposta mais franca. O gaguejo confirma.

Ele não escuta Caetano Veloso. Prefere Milton Nascimento e Rachmaninoff.


Texto e entrevista por Diego Ponce de Leon

"Cucurrucucú Paloma"


"Cucurrucucú Paloma"


Caetano nasceu cego. Não conheceu o doce vermelho do morango. Não experimentou o vermelho ardente do fogo. O verde das folhas. A natureza verde. O céu azulado. O azul do amor. A vida era preto e branco. Como nos filmes de outrora. Como Glória no "Crepúsculo". Como a escuridão profanada nos tristes lábios que disseram: "Rosebud" em Cidadão Kane. Não havia cores. Nem o colorido de Frida Kahlo coloria seus olhos fechados. Questionava a vida. Sua função, suas virtudes. E a achava inútil. Nunca sorriu! Nem riu. A boca cerrada e a tristeza estampada eram fiéis companhias. Nunca sorriu...

Escutava Dolores Duran e compartilhava de sua angústia. Sentia Maysa e compartilhava de suas lágrimas. Ouvia Elizete e compartilhava da "Canção do Amor Demais". Lia com os dedos Augusto dos Anjos e compartilhava de sua repulsa e hipocondria. Era digno de pena. Misericórdia pelo rapaz cego!

Na inócua juventude conheceu Paloma. Doce Paloma. De cachos negros, pele dourada, olhos mel e lábios rosa. Cores vibrantes aos olhos inquietos de Caetano. Enamorou-se. Perdeu-se no amor. Encontrou-se na paixão. Mas seguia triste e calado. Faltava-lhe visão para declarar o contido sentimento. Mal sabia que doce Paloma nutria sentimento igual. Que aguardava ansiosamente mostrar-lhe o mundo, os filmes coloridos e as músicas de Gil. Existia algo especial na vida turva e desfocada daquele rapaz que nunca sorriu. Ela, com visão nítida e transparente, tampouco tivera razão para sorrir. Choravam, juntos, a ausência do outro. Ele desejando vê-la. Ela preferindo não ter visto.

A dor insuportável do sentimento que o coração não lhe continha, o fez atingir o inimaginável. Na presença de Paloma, numa tarde ensolarada, de um dia vívido em cores, declara-se. Paloma, repleta e sufocada de uma sensação de alívio e libertação tão intensos quanto a paixão que impulsionava seu coração à uma batida frenética, perdeu-se nas palavras e rendeu-se à uma falta de ar e a um choro descomunal. Pena que ele não pode ver doce Paloma ofegante, mas sorrindo.

Inibido pela respiração vacilante da amada e pelas lágrimas que imaginava escorrer, embebedou-se da certeza inabalável que seu amor jamais fosse recíproco. Humilhado pela exposição explícita do âmago da dor, levantou-se e correu em direção ao quarto. Não sem antes cair, derrubar-se e perder os passos. Na gaveta, empunhou-se da tesoura, que já alimentara sua imaginação anteriormente, mas que não cumprira seu papel. Deferiu um único golpe contra o próprio corpo. Não viu o sangue vermelho. Nunca sorriu!

Houve apenas tempo para que Paloma, ainda calada, lhe desse um único beijo. Como o beijo no asfalto de Nelson Rodrigues. Como uma despedida. Os lábios rosa de Paloma na sua boca. Com a mesma boca, Caetano proferiu suas últimas palavras: "Te vi, te vi, te vi. Eu não buscava à ninguém e te vi." No rosto de Caetano, um sorriso eternamente estampado. Imortalizado.


“O resto é o silêncio.”


Texto de Diego Ponce de Leon

quinta-feira, 29 de maio de 2008

"1968 - O Ano Que Não Terminou", de Zuenir Ventura


1968 – o ano que mal começou

Passei o reveillon daquele ano em Paris. No que me compete, não poderia afirmar que na capital francesa tenha ocorrido festa similar à celebração do ano que surgia, como a que se deu na casa de Heloisa Buarque de Holanda. Zuenir Ventura abre “1968 – O ano que não terminou” (Planeta, 2008) relatando os casos e acasos daquela memorável noite, que de alguma forma, como pretende o autor, já estabelecia o tom dos acontecimentos que estava por suceder e varrer o país de uma forma avassaladora.

A história me elegeu testemunha quando permitiu que eu estivesse a caminho do Cinematéque, onde pretendia assistir qualquer filme, embora já soubesse que possivelmente Godard estaria em cartaz, no dia mais importante de sua trajetória, quando sucumbiu e fechou as portas. Ali se anunciara tempos antes, que “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, faria parte uma mostra de filmes latinos a ser montada. Eu soube do culto ao filme de Glauber no Brasil e aguardava ansiosamente por sua estréia. Não demorou para que eu fosse informado pelos dispersos estudantes que circulavam nas proximidades, do absurdo que significava o afastamento de Langlois. Quando percebi, já era militante ativo de uma manifestação que ocorria em frente ao cinema. Nesse instante, ajudei a pichar “É proibido proibir”.

Foi o sociólogo e intelectual Fernando Henrique Cardoso, por acaso meu professor na Universidade de Nanterre, que me proporcionou um panorama crítico e detalhado dos eventos que abalavam a sociedade brasileira. De tais eventos, testemunha eu não fora, mas Zuenir me fez observador atento.

Leandro Konder, filósofo da época e personagem na obra de Zuenir, foi quem melhor definiu as atribuições do livro quando afirma: “1968 – O ano que não terminou presta relevante serviço à revitalização da consciência democrática brasileira.” Num país de memória escassa e que ao desconhecer o passado, se condena a repeti-lo, Zuenir Ventura esmiúça o passado e nos condena a engoli-lo. Vítima da repressão que se instalava, Zuenir se mostra imparcial e retrata fielmente os ocorridos. Mas recorre, sem pudor e com maestria, à ironia clara, que seria referência em seus textos futuros. Célebres ou inusitados, os momentos descritos ganham formas impecavelmente vívidas e vorazes, onde os coadjuvantes são protagonistas e os detalhes, texto principal.

A morte de Edson Luís de Lima Souto, no Rio, nem se compara à agitação ocasionada em virtude de sua missa de sétimo dia. Morto irrisoriamente durante tumulto causado pelo descontentamento do aumento nos preços do restaurante estudantil Calabouço, descobre-se que foi sua missa, não sua morte e muito menos ainda sua militância (inexistente), que o fez mártir da juventude. Diante da Candelária, eu certamente teria repetido: “Inesquecível, padres.”

A Passeata dos Cem Mil é, literalmente, um capítulo à parte. Podemos transitar dentre a multidão e por alguns instantes o livro em nossas mãos quase se torna mais um cartaz dentre tantos. A rua ao lado poderia ser a Rio Branco ou a Presidente Vargas. O Teatro Municipal se ergue majestosamente nos tropeços da imaginação. Escutamos com uma clareza estarrecedora as palavras dos vários discursos de Vladimir Palmeira. Zuenir sabe a medida exata da longitude de seu texto. Pouco mais, era capaz de me levantar e esbravejar meus ideais. Ao término do capítulo, eu disse em voz alta, como se diante de uma platéia: “Foi o espetáculo mais impressionante que eu vi na minha vida”.

Por vezes, a sensação é repugnante. O estômago embrulha. Como assistir um filme de David Linch. Indigerível. A veracidade cinematográfica da assembléia no Teatro de Arena da Faculdade de Economia, na Praia Vermelha, que culminou com a vingança abusiva, imoral e subversiva no campo do Botafogo é incômoda. A sexta-feira sangrenta pungiu minha dignidade e manchou de vermelho minha impotência. Naquele dia, eu já teria atestado: “Quando o Exército não será um valhacouto de torturadores?”. A única cor rouge que pairava minhas afixações, era a representada por Daniel Coehn.

Caetano, Gil e Geraldo Vandré protagonizavam o ménage à trois mais interessante do cenário musical relevante. Com direito a amante de luxo: Chico Buarque. O painel musical e as transformações culturais oriundas desse, trazem ritmo e uma dinâmica melodiosa ao livro. As letras, as peças de teatro, o idealismo artístico, a nudez de Marília Pêra, a boca suja de Marieta Severo, o carcará de Bethânia, a alegria de Veloso, o domingo de Gil, as carolas de Chico e por fim, as flores de Vandré, expunham o liberalismo e a evolução do senso comum. Talvez maior herança daquele ano. Empurraram os estudantes e deram voz às suas reivindicações.

Estudantes! Caros estudantes. Invejo-os. Não que as passeatas no Quartier Latin fossem despretensiosas. Mas a causa não era minha. Teria trocado a ocupação da Sorbonne, pela da UNB. Preferia o gás lacrimogêneo. Os papéis picados do centro. As reuniões clandestinas. As sessões extraordinárias de “Roda Viva”. Justo, serem vocês o fio condutor, a linha de argumentação de Zuenir Ventura. Mas admito, no que tange o congresso da UNE em Ibiúna, ali, durante a organização eu teria sido Caetano Veloso e berraria aos quatro cantos: “ Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada!”. A perspectiva presente seria melhor se sequer existisse qualquer movimento estudantil. Deu lugar ao egoísmo acadêmico.

Jogando às favas os escrúpulos da consciência, o AI-5 foi instituído. Minuciosamente detalhado pelo autor, acompanha-se os passos de Costa e Silva no fatídico 13 de Dezembro. Pedro Aleixo tem seu legado quase heróico documentado e Jarbas Passarinho aproveita para não posar de madalena arrependida. O cenário e todos seus elementos, a iluminação, os figurinos, o elenco, a sonoplastia, o contra-regra, o preço do ingresso, os improvisos e a transparência cênica, são apresentados de forma tão assustadoramente claros, que a previsibilidade dos atos finais antes que as cortinas se fechem é soberana. Cai o pano. Quem não caiu, foi de Gaulle. Pelo menos não vi.

Quisera eu ter participado do reveillon de Helô. E lá, jamais teria dito que aquela libação significava “o fim de uma era, e não, infelizmente, começo de uma nova”. Zuenir Ventura prova o contrário. Que o diga a líder estudantil da AP, que gritava “Quero trepar! Quero Trepar!”. Dizem que ela, virgem na festa, já perdeu a conta. A fonte é segura. Essa transformação deu tempo de eu ser testemunho.

Texto por Diego Ponce de Leon

terça-feira, 13 de maio de 2008

Perdendo "la ternura"




Uma das mais tradicionais comunidades a co-existir entre nós, acordou abalada e profundamente sentida com uma notícia inesperada, cujas conseqüências ainda não tomaram as devidas proporções. Recebida de maneira festiva por uns e de forma fúnebre por outros, a pacata e amigável comunidade vê-se dividida e ansiosa pelos próximos acontecimentos. Unânime é certamente a expectativa de todos perante o anunciado discurso a ser lido, pelo líder comunitário, claramente devastado, Gargamel Guevara.
O afastamento de Fidel Castro do governo cubano trouxe uma sensação de perda e derrota talvez desconhecidas do governante de botas vermelhas. Orgulhoso por manter vivo e em perfeita harmonia, o único povoado absolutamente comunista em todo o mundo, Gargamel se enfraqueceu com a queda de uma referência ideológica como Fidel. Admirava-o em demasia e utilizava-se de seus ensinamentos para manter intacto o sentimento socialista entre os smurfs. Num já longínquo passado, fora assim que tornou todos iguais em Smurflândia. Ao estipular que cada cidadão azul se vestisse da mesma forma, trabalhasse exclusivamente em equipe e não ostentasse bens materiais, atingiu gradativamente níveis de excelência comunista até então considerados impossíveis, talvez até mesmo por Lênin ou Marx.
Gargamel, que adquiriu o sobrenome Guevara recentemente, para honrar a morte e os ideais do companheiro de outrora, recolheu-se indefinidamente, e esteve em público em duas ocasiões somente. Para anunciar o discurso que ditará as novas diretrizes da comunidade, onde deverá exprimir seu pesar pela queda de Fidel, e em rápida visita à ilha cubana , onde esteve com Raúl Castro.
Temido e rejeitado por vários, Gargamel perde forças na manutenção de seus objetivos. Se não fosse a idade avançada de 137 anos que já o aflige, a queda de Fidel traz perspectivas indesejáveis.

Num futuro breve, os smurfs talvez já usem calça jeans.


Texto por Diego Ponce de Leon

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Sou Brasileiro

Sou brasileiro. Tenho vergonha do meu país. Assisto perplexo as notícias que tangem a inevitável corrupção praticada por nossos eleitos. Políticos empossados com nossa benção protagonizam o mais assustador filme de terror já produzido. Digno de Bela Lugosi. Maior frustração é saber que esta película não atingirá um final feliz. Não há “mocinhos” na história e nosso herói é o principal bandido.
Servidores públicos atuam magistralmente em seus papéis que consistem na ação de omissão. Contribuem silenciosos e imunes de culpa, para que o grande desfecho trágico atinja seu ápice. Será o triunfo! Condecorações deveriam ser distribuídas para estes ineptos coadjuvantes. Políticos são peças fundamentais para esse enredo e seriam descritos por Nelson Rodrigues como “cretinos fundamentais” nesse roteiro. Como os figurantes malandros de “Cidade de Deus” e os personagens hipócritas de Fellini.
Nós, o povo, assistimos calados nossa própria desgraça, regados da ilusão de não sermos parte daquilo escancarado na tela diante de nossos olhos. Pagamos o ingresso. Destarte, propiciamos a existência deste entretenimento simplório, que de forma alguma jaz efêmero. Simplório somos e esta ignorância irrisória e característica, efêmera jamais fora. No final do filme, levantar-nos-emos e sairemos da sala de projeção. Munidos da vergonha daquela banalidade explícita, nada comentaremos. Afinal, qual o sentido de discutirmos algo tão natural e cotidiano? Alguém mais corajoso poderá comentar: “triste, não?!”. Será rapidamente tomado pela decepção ao receber como réplica: “faz parte” ou “é a vida, meu filho”.
Mas todos nós esperaremos ansiosos pela seqüência e mais uma vez lotaremos a sala de projeção. Enquanto a segunda parte não chega, continuaremos a acordar às 5 da manhã, iremos abandonar nossas famílias e partir em busca do soldo nosso de cada dia que garante nossa patética existência. Afinal, não recebemos auxílios pecuniários, pelos menos não em forma de esmola. Diferentemente daqueles do filme, patrocinados por nosso suor para continuarem atuando. Ora! Eles merecem! São pessoas de valor, cultos, que sacrificaram a vida inteira para escrever o nosso destino. “Até aí, morreu Neves...”.
Viva os filmes de Frank Capra, desprovidos de sensações intelectualizadas e conteúdo pragmático, mas protagonizados por pessoas comuns, como nós. Acima de tudo, repletos de finais felizes.

“Quem me dera ao menos vez (...) acreditar que o mundo é perfeito, que todas as pessoas são felizes.”

Sou brasileiro e já desisti há muito tempo.

Texto de Diego Ponce de Leon

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Welkomm!!!!

Faça das minhas palavras, as suas. Seja bem-vindo. O prazer é todo seu!!